Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

NEGRITUDE E IDENTIDADE


Há alguns dias atrás, foi me feita a seguinte pergunta: Como você sendo negro é protestante? Como fica a sua identidade étnica cultural, em relação às religiões de matizes africanas? A pergunta tinha um caráter investigativo. Quem perguntou possui certa indignação em relação a minha espiritualidade, por ser de uma linha protestante, e na concepção do meu interlocutor, a religião do branco. A questão se agravou mais, pelo fato de que eu trabalho diretamente com povos africanos e na mobilização de afro-descendentes brasileiros.

No entanto, naquele momento, até por falta de oportunidade e tempo, não me foi possível responder esta pergunta, ocasião esta que o faço.

Primeiramente é bem certo que religião e identidade são coisas que são muito intímas. Só temos uma identidade religiosa, quando nos identificamos com nossas próprias raízes. Digo isso, pois conheço uma infinidade de pessoas que freqüentam algumas religiões ou cultos, tanto protestantes, como católicos ou umbandistas, mas como um legado de família (o avô, a avó, o pai, a mãe sempre foram de tal culto, então a pessoa carrega consigo o legado familiar, que o atrela a suas raízes familiares, suas tradições, e coloca quase que inconscientemente o peso do continuísmo), do que por convicções de fé.

Um outro fator interessante, é que as condições sócios culturais sofrem mudanças no decorrer dos tempos. Se olharmos estatisticamente veremos que, no Brasil, a religiosidade afro-descendente não está, em sua manifestação mais intensa, ligada aos cultos africanos, mas sim ao protestantismo, e em especial ao pentecostalismo evangélico. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) existem cerca de 11.000.000 de afro-descendentes nas igrejas pentecostais e neo-pentecostais do Brasil, contra 253.000 adeptos de cultos afro-brasileiros. Se concluíssemos baseado nesta estatística do IBGE, poderíamos afirmar que a identidade religiosa de um negro brasileiro é pentecostal. Não é minha intenção discutir estes dados e nem este assunto neste espaço.

O que quero afirmar é que a identidade de um indivíduo não está atrelhada a determinadas práticas, mas sim a consciência. Não é pelo fato de fazer isso ou aquilo, freqüentar esse ou aquele culto ou religião, que o indivíduo deixa de ser mais ou menos negro. A negritude antes de ser estética ou promotora de determinadas práticas, ela é essência, consciência, conteúdo.

A afirmação da negritude não está nos objetos ou roupas, ou músicas, ou comidas – isso compõe a negritude, mas não é a negritude. O que eu como, ou bebo ou ouço não determina o que sou na essência do ser. A negritude está na consciência. Posso perfeitamente estar numa roda de samba ou num concerto de música clássica, ou então posso estar vestido com um traje tradicional africano, cheio de cores e estampas, ou mesmo vestido num terno de corte italiano, e mesmo assim ser um negro consciente da minha negritude, da minha identidade, da minha raiz. Posso usar um terno Armani e mesmo assim entender, perfeitamente, minha condição de afro-descendente que já esteve amarrado no pelourinho e viveu de pés descalços na senzala. A senzala não é apenas uma dimensão geográfica aprisionante, é vivência existencial contemporânea.

O negro antes de tudo precisa aprender a ocupar seu espaço. E ocupar seu espaço, não é fugir dos espaços ‘embranquecidos” pela condição atual, mas mostrar de forma consciente, que o negro não está mais na senzala.

Não posso ser tão racista como o meu opressor.

Gosto de roupas africanas, mas gosto de terno e gravata. Gosto de musica black, mas aprecio o jazz e o canto gregoriano. Gosto de feijoada suculenta, mas gosto de macarronada regada a um bom vinho tinto, sem, entretanto, perder a minha essência africana. Essência é consciência de que, eu mesmo não posso me marginalizar. Ando cansado de um discurso marginalizante. Um discurso que vem de dentro vem dos negros. Eu não quero mais ficar lamentando e apresentado os motivos de não seguir adiante. Então, o que devo fazer? Devo me apropriar desta minha condição, por isso estudo, busco conhecimento, atualização, corro mais que muitos e tento chegar com todos – brancos ou negros-, esforço-me muito mais – conseqüência de um espírito escravocrata que ainda opera no inconsciente do homem branco – e não perco a oportunidade de ocupar meu lugar, numa sociedade embranquecida e do embranqueci mento – quando ela se apresenta.

Bom, para concluir, sabendo que acabei de criar novos “inimigos” negros por causa das afirmações deste texto, quero dizer que ao invés de ficarmos preocupados com o que devemos fazer ou deixar de fazer para afirmar nossa negritude, nós devemos é lutar, estudar, conscientizar-nos, e enquanto a sociedade não reconhece o imenso valor do negro na construção do nosso Brasil, devemos nos esforçar mais, mais que qualquer outro na afirmação de que o negro está na sociedade brasileira e ajuda de forma atuante e orgânica, na construção de um Brasil de igualdade e oportunidade para todas as raças.

É! Eu sou o Marcelo e sou negro.

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